Você contratou porque não dava mais. Achou que ia respirar. E respirou, por umas três semanas.
Depois voltou tudo. Não do mesmo jeito, é verdade. Antes você fazia. Agora você explica, acompanha, revisa e conserta. Trocou a mão pela cabeça, e a cabeça cansa mais.
Um dos seus colegas escreveu isso com essas palavras, num formulário: "Hoje os clientes querem falar somente comigo e não consigo pensar em férias porque tenho medo de dar merda. Tive outros colaboradores mas não deu certo."
Repara na ordem das frases. Primeiro o cliente que só fala com ele. Depois as férias que não existem. E no fim, quase como desabafo, a confissão de que já tentou.
Outro escreveu uma lista que é quase um diagnóstico completo: "Medo de contratar, sem procedimentos e processos, não sei escalar, medo de delegar." Quatro coisas numa frase só, e as quatro são a mesma coisa vista de ângulos diferentes.
E tem a que mais aparece, dita com cuidado, porque ninguém quer parecer arrogante: "me desligar do operacional mantendo a qualidade do serviço prestado." O que está escrito ali é que ele acredita que a qualidade depende dele estar presente. E, do jeito que a operação está montada hoje, ele tem razão.
Enquanto isso o mês corre. Sexta-feira era o dia de sentar e planejar, e virou o dia de apagar o que ficou da semana. A reunião com o time é aquela conversa rápida no corredor. E você olha para trás e viu três anos passarem com a empresa no mesmo tamanho, só que com mais gente dentro.
Se você ainda não contratou
Os três pensamentos abaixo provavelmente já passaram pela sua cabeça, e nenhum deles é bobagem.
Que só você sabe fazer do jeito certo. Que o cliente vai criar vínculo com o funcionário e um dia sair com ele. E que o salário vai comer todo o faturamento, porque hoje o que entra é o que você produz com as suas mãos.
Os três medos têm a mesma raiz: sem estrutura escrita, eles são verdadeiros. É exatamente por isso que se escreve antes de contratar, e não depois.
A Empresa Não Escrita
O problema não é a pessoa que você contratou, e também não é você. É uma coisa mais específica.
A sua empresa existe. Ela atende, fatura, resolve. Mas ela existe dentro da sua cabeça, e não em lugar nenhum que outra pessoa possa consultar.
Quando você contrata, você contrata braço. O braço aprende a executar em algumas semanas, porque executar é a parte fácil. O que nunca sai da sua cabeça é a decisão. Quando dar desconto. O que é escopo e o que é extra. Quando escalar para você. Como responder o cliente que liga às dez da noite.
Nada disso está escrito. Então tudo isso volta. E é por isso que contratar não resolveu: você adicionou mão de obra numa empresa que continuou tendo um único cérebro.
E tem uma segunda camada. Além de a decisão não estar escrita, o nível não está definido. Você contrata para ser N1 e cobra entrega de N2. A pessoa faz o que consegue, e você conclui que ela não é boa o suficiente.
Ela é. Só não é para aquele lugar. Você não errou na pessoa, errou no encaixe.
Você não é ruim de delegar. Você está tentando delegar uma empresa que ninguém além de você consegue ler.